![]() |
| PM de SP reprime professores na Av. Paulista (10/05/13) |
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Sobre o fim das escolas
O fluxo ordeiro é o alimento da paz policial, saia da ordem e alimentará o seu ódio! Por que o professor é agredido a cassetete? Por que ele deve ser agredido? Eu fui professor e observando assim me sinto agredido também. Não apenas por me sentir da mesma classe, mas por observar que o nosso sistema admite um fato desse tipo. Quando o estado volta a sua raiva aos educadores da sociedade, está na verdade os admitindo como seres supérfluos. Não deveria ser uma calamidade pública? Talvez sim, mas o sistema viciou e fatos desse tipo já não tem a capacidade de indignar. São fatos que, junto a tantos outros, formam um esquema banal, repetitivo e facilmente remediável. O cassetete é um remédio, uma pílula de ordem a força. Seja um cidadão de bem tomando essa porrada! Temos alguma chance de atingir uma cultura de paz agredindo o professor nas classes e nas ruas? Sinceramente, clamo a todos os professores: acabem com as escolas! Que instituição é essa que estamos defendendo, se não uma anacrônica ferramenta de formatar seres humanos? Se as pessoas tem uma noção de liberdade hoje é porque elas tem as ruas, os fluxos e as culturas! Professores, não temos razões suficientes para continuar movendo esse sistema educacional falido. Clamo também aos alunos: acabem com as escolas! Tenho certeza que antes que não haja mais nenhum muro ou grade de escola em pé, já teremos a resposta para essa transformação. Temos os meios. Uma nova sociedade só será possível a partir de uma nova educação, que nada tenha a ver com a atual. Enquanto isso não ocorre, a violência segue nas ruas e dentro das escolas. Quem vai nos proteger, inclusive da polícia? Quem vai atender as principais demandas dos professores? É chegado o momento de pensar e agir por uma solução de baixo pra cima. Ela virá dos professores organizados e de toda a sociedade, e sem dúvidas será mais digna do que qualquer reivindicação ao governo.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Desamor
Olha pra frente, e tira o olho de mim, sua ridícula!Depois de ouvir tal frase em tom grave de ofensa e um tanto de ódio, só pensava em nunca mais vê-lo. Dispensou-o em casa e saiu às pressas com o som do carro no talo. Dirigia para casa em alta velocidade. Na mente injúrias e uma mancha que tomava conta de suas memórias. Parada no semáforo ainda teve que ouvir um caminhoneiro a chamar de gostosa. Dedo do meio! Saiu acelerando, pisou realmente fundo. Tão fundo, mas tão fundo que não garantiu a curva. Antes do estrondo, abriu os olhos.
Quando olhou para o lado, percebeu que ele também despertava. Seus olhos, ainda inchados, davam uma leve impressão de raiva contida, com certeza pela briga da noite anterior. Ela não queria se deixar levar pelo pesadelo, mas sabia que devia ser prudente. Tomou coragem e disse:
Hoje você vai embora de ônibus!
terça-feira, 16 de abril de 2013
Invasão
Entre o cheiro do perfume invadindo suas narinas e a faca afiada invadindo sua carne, ele preferiu a faca. A lembrança que o perfume lhe trazia era mais aflitiva, mais terrível e absurda. Foi então que ela invadiu afiada, não a faca, e sim a lembrança, pois o perfume estava em tudo.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Quem dera
Quem dera se a terra de lá tivesse a água do céu de cá, onde jorra pra cair nesse asfalto desumano onde não repousa passarinho, só pneu de carro apressado. Quem dera se a boca de lá tivesse a comida da barriga de cá, onde o arroto despreza a saciedade já tão banal e fácil. Quem dera se os olhos de lá tivessem o brilho das vitrines de cá, onde a felicidade se resume à etiqueta, ao invés de ser espontânea, abstrata e gratuita. Quem dera se o amor de lá tivesse no coração de cá, onde só brota apego e vaidade, onde quase nunca nasce a resistência pra viver acima de tudo e perceber que o outro às vezes merece mais.
domingo, 31 de março de 2013
Entusiasmo e engajamento - O caso Feliciano
As manifestações geradas pelo "caso Marco Feliciano" mostraram um ponto muito positivo, que a causa dos direitos dos homossexuais está se fortalecendo como nunca no Brasil. A homofobia nunca foi tão discutida, nunca entrou com tanta força pelos olhos e ouvidos da gente, nos obrigando a nos questionar sobre esse direito à diversidade. Hoje a maior parte da população conhece essa luta e está formando a sua opinião, o que já pode ser considerado uma grande vitória. Entretanto, a forma como essa revolta se aplicou nos protestos - em alguns casos - foi alarmante, principalmente no que se refere a um nítido preconceito contra as igrejas evangélicas. O choque religioso, o questionamento da fé alheia é um ato perigoso e que cristaliza um conflito insolúvel na sociedade. Além disso, o linchamento público do Pastor Feliciano desvia o foco da luta institucional e configura aquela velha história do "boi de piranha". Somos contra ele, mas a favor de quem? Onde queremos chegar? O que se faz necessário entender é que o avanço da causa não passa por um embate religioso, e sim pela organização e engajamento dos que se sentem atraídos por ela. Não basta apenas compartilhar e manifestar publicamente, é preciso trabalhar cotidianamente. Na política, o entusiasmo é uma chama intensa, que movimenta e contamina, mas que se apaga rapidamente. Muitos se rebelam sazonalmente, isso não constrói avanços democráticos. É fundamental criar uma dedicação paciente e a longo prazo, e não apenas nesse tema, mas em todos que dizem respeito a ampliação dos direitos humanos.domingo, 24 de março de 2013
Desejos guardados
Tente passar a adorar aquilo que sempre odiou. Eis a beleza da contradição, quando ela te mostra que há vida, que seus valores não são estáticos. Um corpo humano nunca experimenta uma mesma sensação duas ou mais vezes. Pode ouvir a mesma música, mas não com os mesmos ouvidos. Pode sentir o mesmo cheiro podre, mas nunca irá sentir o mesmo nojo, nem fazer a mesma careta. A gente tem, se quiser, a capacidade de ser muitos em um só. Basta um pouco de coragem e a gente pode experimentar de tudo. Tem uma hora que aquele desejo guardado se liberta e você faz o que não sabia que queria, mas queria. É boa a sensação de se olhar e perguntar: quem é você? pensei que era eu!
sexta-feira, 22 de março de 2013
O cientista político
Numa cidade nada pacata vive um cientista político, pelo menos é esta sua autodenominação. Convicto de que vive num mundo sórdido e pouco confiável, observa a vida cotidiana de seus concidadãos através de sua lupa pessimista. Dessas observações extrai documentos da mais alta importância, todos sempre muito bem distribuídos pela imprensa local, que lhe abre espaço dada a sua ótima reputação de colecionador de desafetos. Ele é pop e muito polêmico, porém pouco compreendido, justamente por um leve pedantismo, digno de qualquer cientista destacado. Entre ele e todos nós existe um abismo profundo onde está depositado o que resta da escassa moral que ainda existe por essas bandas. Ao seu lado só figurariam, se fossem capazes de atingir sua altivez, certos paladinos da retidão e dos bons costumes. Na verdade, ele faz questão de ostentar alguns péssimos hábitos, faz parte da manutenção de seu destacamento perante a insignificância de seus inimigos, ou seja, todos que o rodeiam. Resumindo, ele é politicamente incorreto, tem identidade debochada e faz escola nessa gloriosa forma de encarar a vida. Há indícios de que ele perambula secretamente por alguns porões ao lado de outros roedores da coisa pública, mas sobre isso nada podemos afirmar. Por outro lado, é muito difícil vê-lo nas ruas, pois ele não se envolve com as ações práticas da política, ditas por ele hábitos costumeiros de molecotes mimados e ingênuos. A democracia para ele se resume ao direito de proclamar suas verdades iluminadoras e absolutas, sempre mantendo sua imunidade aos imorais. Sua posição é de fato a de franco atirador, la do alto ele acerta precisamente em todos, ninguém escapa de sua mira precisa. E assim ele prossegue em sua heroica missão, delatando as bravatas alheias e inflando o seu generoso ego de ser solitário e perseguido. Um bravo guerreiro da causa própria. Vida longa ao cientista político!
Assinar:
Postagens (Atom)

