sábado, 28 de setembro de 2013

Fome de partida

Novos ares querem me respirar
Novas estradas querem me percorrer
Mas não encontro a despedida
Nem a fome de partida

Vou procurar no esquecimento
Lá na caixa das memórias
Aquela força de vontade
Minhas asas de liberdade

Quem sabe assim posso partir
Sem o compromisso de voltar
Despedir-me das dores
De tombos e antigos amores

Mas as cicatrizes irão comigo
Serão minha única bagagem
Para eu nunca me perder
Nem jamais me esquecer

Vou procurar no esquecimento
Lá na caixa das memórias
A coragem que um dia eu tive
Meu desejo de ser livre

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O outro, esse espelho

Tentei me enxergar por inteiro, mas não foi possível. Meus olhos não alcançam certas regiões. Tentei um espelho, mas nem assim consegui. Por ele, só pude enxergar meus próprios olhos. Me viciei neles, achei que eles pudessem me responder, mas as perguntas voltavam. Enxerguei menos ainda. Olhos que se veem através de um espelho dizem muito pouco, ou quase nada. Afinal, quem você quer convencer? O melhor pode ser não ser. Não parecer. Não convencer. Só os outros podem nos enxergar por completo. Olham, reparam, assimilam, percebem. Você só se vê por inteiro através dos olhos dos outros, você é o que o outro vê.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Corpos encontrados

Quero agradecer aqui às pessoas que me abraçam e que, assim, me dão o direito de abraçá-las também. Não falo dos tapas nas costas. Falo dos abraços sinceros, aqueles que encontram peito com peito. Nem todos são tão apertados, alguns são mais tímidos. Outros ainda são cheirosos, e tem certos até excitantes. De qualquer forma, o carinho dos abraços é um bem necessário à vida. Dois corpos fazem mais sentido quando assim estão: abraçados, simplesmente encontrados.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Festa sagrada

Dançam lado a lado homens, mulheres e orixás. Unidos, festejam a vida em sua totalidade evolvendo sensualidades, astúcias e purezas, humanas e divinas. Celebram suas alegrias, suas dores, seus encantos e lamentos. Não há fugas, não há pudores, muito menos repressões. Todos se envolvem e se entrelaçam nessa experiência, nessa festa sagrada que é a vida. Aqui, o profano e o sagrado se encontram para gerar as pulsações do corpo e da alma. Os tambores dão o tom. Eles são como uma orquestra natural, como uma tempestade. Entre raios, trovões, lágrimas e suor, eles dançam lado a lado. São pele calejada, sangue, mente e espírito. São o ensinamento e, ao mesmo tempo, são a vontade de aprender. São expressão e sentimento. Todos juntos com os pés na terra numa ciranda em ritmo contínuo. Lado a lado, homens, mulheres e orixás.



quarta-feira, 24 de julho de 2013

Um edifício chamado felicidade

Tô andando pela calçada, olho para o lado, vejo um edifício que se chama felicità. Observo as sacadas, tudo muito luxuoso, limpo e agradável. Vejo agora o portão se abrir, um carro importado sair da garagem. Eu pensei: "por que você está saindo da felicidade, cara? fica aí, o mundo aqui fora é triste, rude, sujo e desagradável!". Ele vai sair porque a felicidade não basta e não é de graça. "E que tenha cuidado para que um dia alguém não tão feliz resolva experimentar à força esse seu sentimento"...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Maracatu: sensibilidade e força

O Maracatu é cultura de resistência, uma ponte com a ancestralidade negra e nordestina desse país. Não é fácil levar um grupo no interior de São Paulo, muito menos manter o fundamento para que a coisa não vire um mero folclore. Conexões espirituais, sociais, humanas e educativas se fazem necessárias para que haja legitimidade. Portanto, não pense que a coisa é brincadeira, não pense sequer que é fácil levar um projeto como esse adiante. Ele sobrevive às custas de muita dedicação e, não raro, sacrifício pessoal e coletivo. Não temos busca por fama ou inserção no mercado, temos sim por existência e resistência. Aparecer por aparecer não é o nosso forte, queremos é fincar raízes e nos consolidar enquanto integração do corpo com a alma, da sensibilidade com a força, do material com o imaterial. Sempre reverenciando a fonte da tradição que são as nações pernambucanas, de onde vem a nossa inspiração e permissão para sermos portadores da tradição. Um salve a quem resiste e promove a cultura do Maracatu pelo Brasil afora, assim como tantas outras tradições populares!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Ocupações

A aula pública com Celio Turino foi mais uma demonstração de interesse dos movimentos em promover o debate público em Ribeirão Preto. Compõe um processo muito rico de ações de ocupação na cidade, que vem agregando centenas de pessoas ano a ano. Gente interessada na reflexão e na ação política de forma apartidária, porém não menos responsável e dedicada.

Precisamos avançar (e muito) no que diz respeito à organização para que toda essa energia aplicada resulte, de fato, em mais qualidade à política institucional de Ribeirão. Sabemos que apenas refletir e agir pontualmente não criará avanços concretos, pois enquanto isso a política habitual vai sendo feita em nossas costas, ditando o rumo dos acontecimentos mais significativos.

Mudar a cultura política é uma missão que requer compreensão profunda das entranhas do poder, formada não apenas por governantes e seus partidos, mas também por interesses de empresários. Requer também a disputa por espaços estratégicos, o que não significa reproduzir modelos viciados. Uma das formas é forçar canais de diálogo para cobrar efetivamente aqueles que estão nessas instâncias.

Esse vem sendo o papel dos movimentos e de suas ações: qualificar o debate público, mapear as demandas e organizar as pessoas e grupos para uma reivindicação sólida e permanente. Passa por estratégias de formação política para a democracia participativa, que exige uma dose alta de autonomia e proatividade.

Que venham mais ocupações, acampamentos, aulas públicas e manifestações, afim de nos proporcionar cada vez mais maturidade. Seguimos!

(A aula pública referida ocorreu no 
dia 9 de julho de 2013 na esplanada do Theatro Pedro II em Ribeirão Preto, promovida de forma independente por agentes de movimentos sociais da cidade.)