sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um pobre coitado

Com o controle remoto na mão
Ele se sente forte e poderoso
Mas o pobre coitado não sabe
Que está num círculo vicioso

Apertando pra cima e pra baixo
Ele se sente livre na programação
Mas o pobre coitado não sabe
Que está preso na televisão

Uma vez dormiu e não desligou
A televisão, ligada permaneceu
Foi então que num pesadelo
A sua alma se perdeu

O pobre coitado agora procura
A sua alma que foi roubada
Apertando pra cima e pra baixo
Com sua mente televiciada



sábado, 7 de agosto de 2010

A abismaticidade do ser

Abismático é aquele que vive o abismo, que olha o abismo e é olhado por ele. Vivê-lo é ansiá-lo. Olhá-lo é ser engolido. Nunca se sabe o que há no fundo do abismo. A imaginação, e só ela, é a porta pela qual a abismaticidade se constrói. Construção essa que não se sustenta, cai, desaba sobre a própria existência. Existir é abismar-se, abismar-se é maravilhar-se ante a profundidade imensa e infinita da vida. Sentir o vento enquanto desmorona-se, sentir a materialidade da não sustentação. Vir a ser é tão simplesmente se deixar engolir, o abismo vive e se alimenta das almas que nele se depositam. É preciso sentir também a escuridão, enxergar a beleza da não iluminação. A falta de luz, quem nunca sentiu prazer ao fechar os olhos? Revela-se aí a primeira forma de abismo. Cair lentamente é a pura perfeição. Portanto, simplesmente solte o peso e assim desmaterialize-se completamente sobre o nada e junte-se a ele.

terça-feira, 13 de julho de 2010

PORQUE EU VOTO NULO

Desde a minha primeira eleição com 17 anos (2002) me aproximei da idéia de anular o voto como forma de revolta contra o estado das coisas. Porém, ao votar NULO hoje já não sinto mais aquele caráter revolucionário de algumas eleições atrás e já não espero que o NULO vença. Se vencer, como dizem, haverá uma nova eleição com novos candidatos. Mas, afinal, que mudança isso representa? Somente novos-velhos candidatos manipulados pelas mesmas empresas e movidos pelos mesmos interesses (Partido? o que é isso?).
Portanto, assumo, votar NULO não trás nenhuma solução prática. Em minha opinião, o que na verdade pode ser demonstrado com este tipo de atitude é o descontentamento com a política em si, não somente com os mandatários. Se ainda se proliferam por aí políticos dos tipos messias, coronéis, demagogos e assistencialistas, é porque a democracia assim o permite. Não há vontade política para erradicar do plano eleitoral tipos como esses, políticos profissionais movidos por interesses próprios e alheios ao sentido da verdadeira justiça social, muito menos para controlar essa ostensiva propaganda política que nos jogam na cara como se votar fosse comprar a melhor geladeira.
Na democracia, como diria um amigo, todos temos o direito de eleger um ladrão. Grande ilusão é acreditar que elegeremos e seremos representados por A ou B, ou partido C ou D, por trás das célebres e até simpáticas figuras estão as grandes corporações de interesses globais, estes sim muito mais efetivos na construção e definição do nosso destino enquanto cidadãos. Definitivamente, ganhe quem ganhar, pra mim tanto faz! As verdadeiras e necessárias mudanças não vão mesmo ser realizadas como deveriam. O meu voto NULO é apenas um grito ingênuo e solitário que diz: NÃO, VOCÊS NÃO ME REPRESENTAM!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ela é livre

Lá vai ela, nos seus passinhos curtos, com seu olhar verde vendo lá longe um lugar bonito. Lá vai ela, surfando em suas mechas onduladas, sentindo que a vida deve ser mais colorida, e por isso pinta pra transformar o que era feio em algo mais belo. Lá vai ela, sentindo cheiros novos, inventando novas formas de achar que a vida vale a pena. Lá vai ela, brigando com quem não entende que nem sempre o sorriso vai desabrochar em flor. Lá vai ela, preguiçosa, andando em descompasso porque sonha acordada. Lá vai ela, mostrando que as horas podem ser mais lentas e melhores quando se está com ela. Lá... lá foi ela, porque ela é livre, porque ela é leve, porque ela voa. Lá foi ela, pois quem a prende jamais aprende que a vida deve ser assim: livre e bela, igual a ela.

terça-feira, 9 de março de 2010

El primer poema en español

Tienes sangre en tus manos
Tienes culpa en tus ojos
y las olas que bañan tu cuerpo
Jamás podrán lavarte


Amarte es mi destino
Mirarte es mi sofrir
y por las calles que te llamo
Solo responde la soledad

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Aquilo que nos possui

Falta ainda inventar um jeito de acabar com a fome no mundo, de acabar com a corrupção, com a violência e com a indiferença. A tecnologia ensinou ao homem que ele pode modificar a natureza e usá-la ao seu favor, mas não resolveu esses graves problemas que são tão antigos quanto os do tal "homem das cavernas". A ciência criou tantos outros problemas que a idéia de progresso e evolução passou a ser sériamente questionada. Seremos mesmo assim tão evoluídos? Tudo o que nos rodeia parece ser um algo a mais sem rosto e sem alma, clamando por energia e petróleo, precisando de nossos cuidados e preocupações... A posse dos bens materiais nos traz, para além de todos os benefícios, facilidades e comodidades, o medo do roubo, da perda, ou seja, do não ter mais! Somos também posse, a posse de tudo aquilo que criamos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

NÃO SEREMOS SEMPRE

Nossa alma não nos pertence eternamente, somos parte de uma totalidade e a individualidade é passageira. Nosso corpo, constituído de matéria, recebe, ao nascermos, uma essência que chamamos de alma ou espírito. Sem ela somos apenas matéria sem vida, um corpo sem essência que rapidamente se desintegra e se distribui na natureza. Da mesma forma, nossa personalidade não é eterna, a essência que recebemos no nascimento - dádiva da natureza - retorna à totalidade do universo quando morremos. Assim como o corpo que retorna à natureza, a alma também é devolvida no ato da morte. O egoísmo do ser humano - e talvez o medo - o impede de aceitar o fim da própria consciência, o que não significa o fim da vida, pois aquela essência (alma) e aquela matéria (corpo) que nos pertenceram passam a compor novas formas de vida. Aquele que se enxerga enquanto indivíduo até após a morte está cego para o fato de que somos valiosas, porém, minúsculas partes do todo. Essa totalidade, que é viva e eterna, exige o retorno da vida individual que ela mesma possibilitou. A memória, a consciência, a alma, o corpo, enfim, tudo o que nós somos retorna a totalidade num processo de reciclagem e recriação. Portanto, para nos tornarmos eternos enquanto indivíduos teremos que deixar uma obra, algo concreto, assim como os poetas, algo que alimente a vida daqueles que, depois de nós, também receberão essa dádiva que hoje experimentamos. Busquemos aqui e agora uma razão e uma função para viver, pois nós... nós não seremos sempre nós!