quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Passos lentos

Ela estava lá, atravessando a rua em passos lentos, com o pescoço esticado e o casco reluzindo ao brilho do sol. Eu também estava, vindo a quase cem por hora no meu uno branco sem calotas ouvindo um samba. Só a vi quando estava quase em cima. Um desvio com destreza e ela não foi atropelada. Na sequência vejo um carro parado no acostamento e o passageiro, já fora do veículo, correndo determinado a salvá-la. De repente ele para e põe as mãos na cabeça, a expressão de seu rosto é de muita aflição. Olho no retrovisor, vejo carros e um caminhão em alta velocidade. Lá em baixo está ela, aparentemente tranquila seguindo em frente na mesma lerdeza em suas perninhas curtas. Fecho os meus olhos, eu não quero ver. Depois de alguns segundos, volto a abrir os olhos, mas sem olhar no retrovisor. No final das contas, não sei o que aconteceu com a coitada. Só me resta a dúvida, por que diabos aquela tartaruga resolveu atravessar a rodovia?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pernas

Uma mãe descabelada gritando com seu pequeno filho porque ele resolveu dar dois passos para longe dela. Ela está sentada no ponto de ônibus, segura a cabeça numa mão e o cigarro na outra. Ele não obedece e resolve dar mais dois passos. O pequeno não estranha os gritos, parece ser corriqueiro. Ainda sentada ela aumenta o tom de voz e grita, agora desesperadamente. As pessoas ao redor olham com cara de estranhamento, algumas aceleram o passo para se distanciarem da triste cena. Eu observo de dentro do meu carro parado no semáforo e penso: no que um adulto supera uma criança? na inteligência? ou puramente na sua capacidade motora? talvez nem nisso! O garotinho queria usar as pernas, deve estar aprendendo a usá-las. A mãe não tem forças para acionar as suas, prefere obrigá-lo a voltar sentada e aos gritos. Depois da imaginação, o movimento das pernas é o que mais aproxima o ser humano da liberdade. Sai andando moleque!

domingo, 9 de dezembro de 2012

O deleite da contradição

Era um passado que ainda machucava, incomodava, mas ainda assim fazia falta no seu coração. E não apenas ali, esse passado também faltava no seu sexo, na sua boca, onde o grito era contido e o gosto brotava como saliva toda vez que lembrava. Pensou que seria uma merda resistir, que ser forte e coerente era algo deveras desinteressante. Pensaria mais e talvez concluísse que o melhor era esquecer, mas não fazia sentido, queria agir sem pensar. E então ela decidiu provar, sentir de novo  o deleite da contradição, por isso resolveu atender o chamado meio doce meio amargo de um passado recente que ao mesmo tempo machucava e molhava o seu corpo. Porém, o seu desejo insano se confundia com um intenso rancor que palpitava no seu peito sempre que se sentia contrariada. Ela não hesitou em gritar suas mágoas que, por mais que fossem superadas, ainda reverberavam na sua memória. Ele escutou paciente, deixou fluir, mas não aceitou quando ela novamente duvidou do seu amor maior. Ela sentia tristeza, percebia mais uma vez escorrer por entre os dedos, por isso agia com desespero e ingratidão. Já não havia mais nada a fazer, mais nada a dizer, só podiam lembrar... ou esquecer.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Minha consciência negra


Eu poderia ser mais um jovem branco de classe média que pouca afinidade tem com questões como a cultura negra e o racismo, mas alguns acontecimentos em minha vida me aproximaram tanto que isso virou a minha grande paixão e trabalho. Na verdade, um fato em especial me encaminhou a pensar criticamente o tema, tendo como resultado a realização de duas pesquisas acadêmicas sobre a história do racismo e a resistência negra. Além disso, criei laços com a cultura, o que me deu condições de absorver novos valores.

Desde a infância cresci num ambiente social duplo, alternando a escola particular com a rua da minha casa, no bairro Monte Alegre de Ribeirão Preto. Na escola tinha colegas de classe média-alta e na rua convivi com pessoas de classe social mais baixa, inclusive amigas e amigos negros, com quem mantenho amizade. Aos 14 anos, num passeio pelo shopping na companhia de três desses amigos encontrei um colega da escola, foi o suficiente para que nas semanas seguintes eu sofresse algumas humilhações. Este colega espalhou para o resto da turma que eu andava com “pretos”.

Naquela ocasião me senti negro e pude, por alguns momentos, sentir a dor da discriminação. O que poderia eu alegar perante aquele tribunal juvenil do apartheid? Sim, eu andava com negros, mas não apenas, esses meus amigos foram uma verdadeira família pra mim durante toda a infância e adolescência. Apesar da condenação não abri mão das amizades, pelo contrário, me afastei cada vez mais dos espaços elitizados que me foram oferecidos ao longo da vida. Uma escolha que revela o meu processo de tomada da consciência negra, que desde então me acompanha.

Dessa maneira percebemos o racismo à moda brasileira, um país que se diz democrático racialmente, pois nunca vivenciou uma guerra étnica declarada como ocorreu nos Estados Unidos e na África do Sul. Aqui convivemos com um racismo velado e pautado por estereótipos, e com a crença de que o negro existe para servir, uma herança dos quatro séculos de escravidão. Infelizmente, como pude perceber, a intolerância se revela em todos os lugares, até mesmo na escola prejudicando o desenvolvimento das pessoas.

Hoje a questão é mais discutida por conta das políticas públicas conquistadas pelo movimento negro, como a lei 10.639, que institui o ensino da cultura negra e história africana nas escolas, as cotas raciais e sociais nas universidades e o feriado do dia 20 de novembro em memória de Zumbi dos Palmares. No entanto, pode-se perceber uma forte reação de setores sociais conservadores tentando minimizar e até suprimir estas conquistas. O racismo à moda brasileira, quase sempre escondido, se manifesta mais conforme cresce a consciência negra.

É preciso enfrentar o pensamento reacionário, uma missão que exige o olhar para novos valores e paradigmas. Nesse processo é importante notar a riqueza que é a cultura de matriz africana, cada vez mais desenvolvida, ganhando espaços e conquistando pessoas. O poder de encantamento presente na musicalidade, no ritmo, na beleza e até mesmo na religiosidade afrodescendente é a linha de frente do exército que visa romper as barreiras da ignorância ainda presente.

Em Ribeirão Preto existem espaços que conservam esta beleza e trabalham um discurso político em favor da igualdade racial, nestes lugares é possível compreender os valores que permeiam a causa e como eles criam um sentido às diferenças. Enquanto o racismo age para reprimir a cultura e a estética afrodescendente, o movimento negro reage cativando negros e brancos com um novo olhar para o mundo a partir de suas raízes culturais. O que se oferece é um saudável processo de auto-estima e valorização da identidade.

Por esses motivos é importante que o dia 20 de novembro seja saudado por todos, principalmente por aqueles que desejam uma sociedade mais integrada. Exaltar a consciência negra é reconhecer uma história de injustiças, é olhar para as feridas abertas que prejudicam o desenvolvimento da sociedade brasileira. Além disso, é também brindar à riqueza cultural que possuímos e reconhecer que a diversidade é nosso grande trunfo, algo que podemos oferecer ao mundo como elemento de transformação dos velhos paradigmas etnocêntricos ainda dominantes.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Revelações de um mestre

E então o mestre perguntou ao seu discípulo:
- Tu preferes ser governado, ou governar?
O sujeito, que exausto já mantinha sua cabeça entre as pernas, assim permaneceu e igualmente questionou:
- Tu preferes ser governado, ou governar?
Fez-se o silêncio. Os olhos intactos daquele ancião miravam os sinais que brotavam na fisionomia de seu aprendiz. Sua calma existia e se manifestava em seu respirar. Foi quando o jovem ergueu bruscamente a cabeça e repetiu em voz furiosa:
- Tu preferes ser governado, ou governar?
A respiração do mestre mantinha-se equilibrada. Seu olhar mantinha-se intacto. Porém, sua boca ameaçava revelar os pensamentos que naquele velho mestre existia. Atônito, seu jovem discípulo observava a iminência de conhecer a grande revelação. Foi então que, numa voz pura e tranquila, soou:
- Sua covardia ainda é maior que o seu desejo de liberdade. Você não governa sequer seu próprio corpo e tenta de mil maneiras acreditar que és livre. Tu és um fraco que ainda permanecerá ausente. Vítima? Esta é tua postura! Pensas que ninguém sofre e teme como tu, acreditas que deve cuidar do pouco que tem por fidelidade a alguém. A utopia chora por ti, covarde!
O rosto daquele jovem se retorcia perante o soar daquelas palavras que, por mais óbvias e que fossem, lhe causavam uma profunda dor.
Chorou.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Lixo ordinário

Uma brincadeira, para ser brincadeira, precisa funcionar como um processo que contém “começo, meio e fim”. Essa estrutura se revela, no caso de uma criança, primeiro no ato de tirar os brinquedos do armário. A pequena, ou pequeno, escolhe o objeto e o retira da caixa onde estão guardados. Depois de espalhado tudo pelo chão, a criança começa a se divertir, sempre com criatividade naquilo que escolheu fantasiar. A brincadeira, no entanto, não termina se os brinquedos não forem guardados de volta. O ato de devolvê-los ao seu lugar representa aquilo que destacamos inicialmente como processo, o pensar no fim.

Ao contrário, vamos supor que a criança, após terminada a brincadeira em si, vire as costas para os brinquedos, ligue a televisão e deixe tudo espalhado pelo chão aguardando que alguém arrume para ela. Nesse caso, a responsabilidade pelo “resíduo” do ato de brincar é deixada de lado e outro terá que “limpar”. A criança, portanto, deixa de sentir que aquilo lhe pertence, pois a brincadeira se resume à diversão e o final do processo é terceirizado. Não raro, um adulto acaba se responsabilizando pela coleta e armazenamento daquilo que a criança descartou, reforçando assim o seu descompromisso.


Na sociedade do consumo é a mesma coisa, onde nós, crianças irresponsáveis, vivemos a cultura do descartável. Porém, nossas brincadeiras vão muito além da fantasia e penetram na vida concreta causando prejuízos imensos à natureza e, consequentemente, à própria vida humana. Quando tiramos um produto qualquer da prateleira do supermercado estamos entrando num processo que começa com a compra, continua no consumo e, supostamente, termina no descarte. Aí entra a irresponsabilidade inerente à nossa sociedade, basta notar a sujeira das ruas para perceber isso.


Descartar as embalagens e demais resíduos colocando-os (ou jogando-os) na rua para serem coletados seria o passo final? A certeza de que o resíduo indesejável irá para longe de mim representa o fim do processo do ato de consumir? Ou isso não passa de uma forma de se isentar da responsabilidade com aquilo que produzimos/consumimos? Essas perguntas nos levam a refletir sobre a sociedade que vivemos, pois nela, é comum varrer a sujeira para debaixo do tapete. O lixo ordinário é o como o brinquedo ignorado, mas além de estar espalhado pelo chão, é ainda enterrado numa vã esperança de que estaria assim sumindo de nossas vidas sem nos causar qualquer consequência futura.


Em resposta à essa irresponsabilidade generalizada, já existem diversas ideias como as caixas de compostagem para lixo orgânico que poderíamos ter em casa, além de uma maior eficiência no processo de reciclagem de materiais descartáveis. Acontece que em cidades com governos igualmente irresponsáveis, como em Ribeirão Preto, essas ideias não são transformadas em políticas públicas, ao contrário, são negligenciadas e postergadas para o futuro longínquo. É necessário que o cidadão assuma a responsabilidade nesse processo, que começa no ato de consumir, passa pela forma de descartar e continua na exigência de políticas mais desenvolvidas para a gestão dos resíduos sólidos e da limpeza urbana. O final vai depender de nós.


terça-feira, 10 de julho de 2012

A alma do negócio é você

Na corrida eleitoral a propaganda é o motor. Durante esse processo, os candidatos disputam a tapas os melhores editores, publicitários, maquiadores e cabeleireiros. É importante agradar pela imagem, pelo dinamismo dos vídeos, pela performance, pela beleza dos apresentadores e pela capacidade de transformar o feio em belo.

Vivemos em um tempo onde o audiovisual cumpre um papel preponderante não só na publicidade de produtos mercadológicos, mas também na promoção de ideias e conceitos. Os políticos não fazem por menos. Não tem grana para contratar a equipe da Globo? Que tal amarrar uma gaiola na sua bicicleta? Ou talvez ficar acenando para os automóveis na avenida? Pinte o seu carro, sei lá, é tudo propaganda!

Na propaganda eleitoral o programa é o próprio intervalo comercial. Não se oferece algo produtivo, não se educa e nem se politiza. O que se faz é a tentativa de convencimento cego, pautado pela capacidade de mentir sinceramente. Perceba que, até mesmo no debate ao vivo que sempre rola na televisão, o que se sai melhor é aquele que age com mais destreza, jogando olhares charmosos e falas bem articuladas para as câmeras.

Nesse negócio, que por sinal é patrocinado por grandes empresas nacionais e multinacionais, o interesse é ganhar o seu voto. Enquanto no capitalismo a publicidade pretende criar necessidades a partir da falsa promessa de felicidade, na publicidade eleitoral se pretende convencer que a sua vida será melhor mediante um voto. Será?

Não podemos descartar a importância das eleições, nossa reflexão vem no sentido de subestimar a importância da propaganda eleitoral. Decidir o seu voto baseando-se em peças publicitárias, e não por uma investigação mais aprofundada dos programas políticos e histórico dos candidatos, é vendê-lo barato de mais. Proteja-se de quem você vai escolher, compare e não se deixe levar pela hipnose visual. Nessa política financiada, a alma do negócio é você.