quarta-feira, 20 de março de 2013
Teimoso
Nunca escreva versos ou qualquer outro texto quando estiver se sentindo triste, eles vão denunciar a sua fraqueza e, não apenas, também parecerão muito entediantes a quem os ler. A melhor coisa a fazer quando estiver se sentindo assim é deixar a tristeza penetrar, fazer o seu curso por todas as veias, ossos, pulmões, consciência e espírito. Sinta o seu trajeto, perceba o que ela quer te dizer, pode ser algo realmente interessante. Talvez essa tristeza seja uma forma de fazer brotar alguma coisa positiva, alguma mudança ou novidade. Seja o que for, com paciência ela irá mostrar o seu significado. Enquanto isso, não seja teimoso!
quarta-feira, 6 de março de 2013
O destino nada promete
Meu bem, quando disse que dividiria pra sempre o meu sucrilhos com você, era verdade. Mas você sabe, meu bem, todo encanto um dia acaba, e o que morava no futuro agora paga aluguel no passado. Meu bem, fiz de tudo pra sonhar de novo aquele velho sonho, mas acordei assustado perguntando quem era você. Não me desminta, meu bem, nunca fui daqueles que vacila quando se trata de um grande amor, mas eu pisquei e ao abrir os olhos simplesmente tudo mudou. Meu bem, eu não sei porque, mas de repente esse bem já não era mais meu. O destino nunca nos engana, porque nada promete. Não foi por mal, meu bem, eu sofri também.
sábado, 2 de março de 2013
28
O tempo é o alimento da existência. Sem ele não há desenvolvimento, não há movimento, não há sequer um simples momento. É o devir, a mudança, o vir a ser, o transformar. São 28 anos vividos e muito ainda a ser percorrido. Só não me sai da cabeça que o melhor da vida ainda está por vir. Tempo, eu não tenho medo, que venha mais uma primavera.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Passos lentos
Ela estava lá, atravessando a rua em passos lentos, com o pescoço esticado e o casco reluzindo ao brilho do sol. Eu também estava, vindo a quase cem por hora no meu uno branco sem calotas ouvindo um samba. Só a vi quando estava quase em cima. Um desvio com destreza e ela não foi atropelada. Na sequência vejo um carro parado no acostamento e o passageiro, já fora do veículo, correndo determinado a salvá-la. De repente ele para e põe as mãos na cabeça, a expressão de seu rosto é de muita aflição. Olho no retrovisor, vejo carros e um caminhão em alta velocidade. Lá em baixo está ela, aparentemente tranquila seguindo em frente na mesma lerdeza em suas perninhas curtas. Fecho os meus olhos, eu não quero ver. Depois de alguns segundos, volto a abrir os olhos, mas sem olhar no retrovisor. No final das contas, não sei o que aconteceu com a coitada. Só me resta a dúvida, por que diabos aquela tartaruga resolveu atravessar a rodovia?quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Pernas
Uma mãe descabelada gritando com seu pequeno
filho porque ele resolveu dar dois passos para longe dela. Ela está
sentada no ponto de ônibus, segura a cabeça numa mão e o cigarro na
outra. Ele não obedece e resolve dar mais dois passos. O pequeno não
estranha os gritos, parece ser corriqueiro. Ainda sentada ela aumenta o
tom de voz e grita, agora desesperadamente. As pessoas ao redor olham
com cara de estranhamento, algumas
aceleram o passo para se distanciarem da triste cena. Eu observo de
dentro do meu carro parado no semáforo e penso: no que um adulto supera
uma criança? na inteligência? ou puramente na sua capacidade motora?
talvez nem nisso! O garotinho queria usar as pernas, deve estar
aprendendo a usá-las. A mãe não tem forças para acionar as suas, prefere
obrigá-lo a voltar sentada e aos gritos. Depois da imaginação, o movimento
das pernas é o que mais aproxima o ser humano da liberdade. Sai andando
moleque!domingo, 9 de dezembro de 2012
O deleite da contradição
Era um passado que ainda machucava, incomodava, mas ainda assim fazia falta no seu coração. E não apenas ali, esse passado também faltava no seu sexo, na sua boca, onde o grito era contido e o gosto brotava como saliva toda vez que lembrava. Pensou que seria uma merda resistir, que ser forte e coerente era algo deveras desinteressante. Pensaria mais e talvez concluísse que o melhor era esquecer, mas não fazia sentido, queria agir sem pensar. E então ela decidiu provar, sentir de novo o deleite da contradição, por isso resolveu atender o chamado meio doce meio amargo de um passado recente que ao mesmo tempo machucava e molhava o seu corpo. Porém, o seu desejo insano se confundia com um intenso rancor que palpitava no seu peito sempre que se sentia contrariada. Ela não hesitou em gritar suas mágoas que, por mais que fossem superadas, ainda reverberavam na sua memória. Ele escutou paciente, deixou fluir, mas não aceitou quando ela novamente duvidou do seu amor maior. Ela sentia tristeza, percebia mais uma vez escorrer por entre os dedos, por isso agia com desespero e ingratidão. Já não havia mais nada a fazer, mais nada a dizer, só podiam lembrar... ou esquecer.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Minha consciência negra
Eu poderia ser
mais um jovem branco de classe média que pouca afinidade tem com
questões como a cultura negra e o racismo, mas alguns acontecimentos em
minha vida me aproximaram tanto que isso virou a minha grande paixão e
trabalho. Na verdade, um fato em especial me encaminhou a pensar
criticamente o tema, tendo como resultado a realização de duas pesquisas
acadêmicas sobre a história do racismo e a resistência negra. Além
disso, criei laços com a cultura, o que me deu condições de absorver
novos valores.
Desde a infância cresci num ambiente social duplo, alternando a escola particular com a rua da minha casa, no bairro Monte Alegre de Ribeirão Preto. Na escola tinha colegas de classe média-alta e na rua convivi com pessoas de classe social mais baixa, inclusive amigas e amigos negros, com quem mantenho amizade. Aos 14 anos, num passeio pelo shopping na companhia de três desses amigos encontrei um colega da escola, foi o suficiente para que nas semanas seguintes eu sofresse algumas humilhações. Este colega espalhou para o resto da turma que eu andava com “pretos”.
Naquela ocasião me senti negro e pude, por alguns momentos, sentir a dor da discriminação. O que poderia eu alegar perante aquele tribunal juvenil do apartheid? Sim, eu andava com negros, mas não apenas, esses meus amigos foram uma verdadeira família pra mim durante toda a infância e adolescência. Apesar da condenação não abri mão das amizades, pelo contrário, me afastei cada vez mais dos espaços elitizados que me foram oferecidos ao longo da vida. Uma escolha que revela o meu processo de tomada da consciência negra, que desde então me acompanha.
Dessa maneira percebemos o racismo à moda brasileira, um país que se diz democrático racialmente, pois nunca vivenciou uma guerra étnica declarada como ocorreu nos Estados Unidos e na África do Sul. Aqui convivemos com um racismo velado e pautado por estereótipos, e com a crença de que o negro existe para servir, uma herança dos quatro séculos de escravidão. Infelizmente, como pude perceber, a intolerância se revela em todos os lugares, até mesmo na escola prejudicando o desenvolvimento das pessoas.
Hoje a questão é mais discutida por conta das políticas públicas conquistadas pelo movimento negro, como a lei 10.639, que institui o ensino da cultura negra e história africana nas escolas, as cotas raciais e sociais nas universidades e o feriado do dia 20 de novembro em memória de Zumbi dos Palmares. No entanto, pode-se perceber uma forte reação de setores sociais conservadores tentando minimizar e até suprimir estas conquistas. O racismo à moda brasileira, quase sempre escondido, se manifesta mais conforme cresce a consciência negra.
É preciso enfrentar o pensamento reacionário, uma missão que exige o olhar para novos valores e paradigmas. Nesse processo é importante notar a riqueza que é a cultura de matriz africana, cada vez mais desenvolvida, ganhando espaços e conquistando pessoas. O poder de encantamento presente na musicalidade, no ritmo, na beleza e até mesmo na religiosidade afrodescendente é a linha de frente do exército que visa romper as barreiras da ignorância ainda presente.
Em Ribeirão Preto existem espaços que conservam esta beleza e trabalham um discurso político em favor da igualdade racial, nestes lugares é possível compreender os valores que permeiam a causa e como eles criam um sentido às diferenças. Enquanto o racismo age para reprimir a cultura e a estética afrodescendente, o movimento negro reage cativando negros e brancos com um novo olhar para o mundo a partir de suas raízes culturais. O que se oferece é um saudável processo de auto-estima e valorização da identidade.
Por esses motivos é importante que o dia 20 de novembro seja saudado por todos, principalmente por aqueles que desejam uma sociedade mais integrada. Exaltar a consciência negra é reconhecer uma história de injustiças, é olhar para as feridas abertas que prejudicam o desenvolvimento da sociedade brasileira. Além disso, é também brindar à riqueza cultural que possuímos e reconhecer que a diversidade é nosso grande trunfo, algo que podemos oferecer ao mundo como elemento de transformação dos velhos paradigmas etnocêntricos ainda dominantes.

Desde a infância cresci num ambiente social duplo, alternando a escola particular com a rua da minha casa, no bairro Monte Alegre de Ribeirão Preto. Na escola tinha colegas de classe média-alta e na rua convivi com pessoas de classe social mais baixa, inclusive amigas e amigos negros, com quem mantenho amizade. Aos 14 anos, num passeio pelo shopping na companhia de três desses amigos encontrei um colega da escola, foi o suficiente para que nas semanas seguintes eu sofresse algumas humilhações. Este colega espalhou para o resto da turma que eu andava com “pretos”.
Naquela ocasião me senti negro e pude, por alguns momentos, sentir a dor da discriminação. O que poderia eu alegar perante aquele tribunal juvenil do apartheid? Sim, eu andava com negros, mas não apenas, esses meus amigos foram uma verdadeira família pra mim durante toda a infância e adolescência. Apesar da condenação não abri mão das amizades, pelo contrário, me afastei cada vez mais dos espaços elitizados que me foram oferecidos ao longo da vida. Uma escolha que revela o meu processo de tomada da consciência negra, que desde então me acompanha.
Dessa maneira percebemos o racismo à moda brasileira, um país que se diz democrático racialmente, pois nunca vivenciou uma guerra étnica declarada como ocorreu nos Estados Unidos e na África do Sul. Aqui convivemos com um racismo velado e pautado por estereótipos, e com a crença de que o negro existe para servir, uma herança dos quatro séculos de escravidão. Infelizmente, como pude perceber, a intolerância se revela em todos os lugares, até mesmo na escola prejudicando o desenvolvimento das pessoas.
Hoje a questão é mais discutida por conta das políticas públicas conquistadas pelo movimento negro, como a lei 10.639, que institui o ensino da cultura negra e história africana nas escolas, as cotas raciais e sociais nas universidades e o feriado do dia 20 de novembro em memória de Zumbi dos Palmares. No entanto, pode-se perceber uma forte reação de setores sociais conservadores tentando minimizar e até suprimir estas conquistas. O racismo à moda brasileira, quase sempre escondido, se manifesta mais conforme cresce a consciência negra.
É preciso enfrentar o pensamento reacionário, uma missão que exige o olhar para novos valores e paradigmas. Nesse processo é importante notar a riqueza que é a cultura de matriz africana, cada vez mais desenvolvida, ganhando espaços e conquistando pessoas. O poder de encantamento presente na musicalidade, no ritmo, na beleza e até mesmo na religiosidade afrodescendente é a linha de frente do exército que visa romper as barreiras da ignorância ainda presente.
Em Ribeirão Preto existem espaços que conservam esta beleza e trabalham um discurso político em favor da igualdade racial, nestes lugares é possível compreender os valores que permeiam a causa e como eles criam um sentido às diferenças. Enquanto o racismo age para reprimir a cultura e a estética afrodescendente, o movimento negro reage cativando negros e brancos com um novo olhar para o mundo a partir de suas raízes culturais. O que se oferece é um saudável processo de auto-estima e valorização da identidade.
Por esses motivos é importante que o dia 20 de novembro seja saudado por todos, principalmente por aqueles que desejam uma sociedade mais integrada. Exaltar a consciência negra é reconhecer uma história de injustiças, é olhar para as feridas abertas que prejudicam o desenvolvimento da sociedade brasileira. Além disso, é também brindar à riqueza cultural que possuímos e reconhecer que a diversidade é nosso grande trunfo, algo que podemos oferecer ao mundo como elemento de transformação dos velhos paradigmas etnocêntricos ainda dominantes.

Assinar:
Postagens (Atom)