segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Revelações de um mestre

E então o mestre perguntou ao seu discípulo:
- Tu preferes ser governado, ou governar?
O sujeito, que exausto já mantinha sua cabeça entre as pernas, assim permaneceu e igualmente questionou:
- Tu preferes ser governado, ou governar?
Fez-se o silêncio. Os olhos intactos daquele ancião miravam os sinais que brotavam na fisionomia de seu aprendiz. Sua calma existia e se manifestava em seu respirar. Foi quando o jovem ergueu bruscamente a cabeça e repetiu em voz furiosa:
- Tu preferes ser governado, ou governar?
A respiração do mestre mantinha-se equilibrada. Seu olhar mantinha-se intacto. Porém, sua boca ameaçava revelar os pensamentos que naquele velho mestre existia. Atônito, seu jovem discípulo observava a iminência de conhecer a grande revelação. Foi então que, numa voz pura e tranquila, soou:
- Sua covardia ainda é maior que o seu desejo de liberdade. Você não governa sequer seu próprio corpo e tenta de mil maneiras acreditar que és livre. Tu és um fraco que ainda permanecerá ausente. Vítima? Esta é tua postura! Pensas que ninguém sofre e teme como tu, acreditas que deve cuidar do pouco que tem por fidelidade a alguém. A utopia chora por ti, covarde!
O rosto daquele jovem se retorcia perante o soar daquelas palavras que, por mais óbvias e que fossem, lhe causavam uma profunda dor.
Chorou.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Lixo ordinário

Uma brincadeira, para ser brincadeira, precisa funcionar como um processo que contém “começo, meio e fim”. Essa estrutura se revela, no caso de uma criança, primeiro no ato de tirar os brinquedos do armário. A pequena, ou pequeno, escolhe o objeto e o retira da caixa onde estão guardados. Depois de espalhado tudo pelo chão, a criança começa a se divertir, sempre com criatividade naquilo que escolheu fantasiar. A brincadeira, no entanto, não termina se os brinquedos não forem guardados de volta. O ato de devolvê-los ao seu lugar representa aquilo que destacamos inicialmente como processo, o pensar no fim.

Ao contrário, vamos supor que a criança, após terminada a brincadeira em si, vire as costas para os brinquedos, ligue a televisão e deixe tudo espalhado pelo chão aguardando que alguém arrume para ela. Nesse caso, a responsabilidade pelo “resíduo” do ato de brincar é deixada de lado e outro terá que “limpar”. A criança, portanto, deixa de sentir que aquilo lhe pertence, pois a brincadeira se resume à diversão e o final do processo é terceirizado. Não raro, um adulto acaba se responsabilizando pela coleta e armazenamento daquilo que a criança descartou, reforçando assim o seu descompromisso.


Na sociedade do consumo é a mesma coisa, onde nós, crianças irresponsáveis, vivemos a cultura do descartável. Porém, nossas brincadeiras vão muito além da fantasia e penetram na vida concreta causando prejuízos imensos à natureza e, consequentemente, à própria vida humana. Quando tiramos um produto qualquer da prateleira do supermercado estamos entrando num processo que começa com a compra, continua no consumo e, supostamente, termina no descarte. Aí entra a irresponsabilidade inerente à nossa sociedade, basta notar a sujeira das ruas para perceber isso.


Descartar as embalagens e demais resíduos colocando-os (ou jogando-os) na rua para serem coletados seria o passo final? A certeza de que o resíduo indesejável irá para longe de mim representa o fim do processo do ato de consumir? Ou isso não passa de uma forma de se isentar da responsabilidade com aquilo que produzimos/consumimos? Essas perguntas nos levam a refletir sobre a sociedade que vivemos, pois nela, é comum varrer a sujeira para debaixo do tapete. O lixo ordinário é o como o brinquedo ignorado, mas além de estar espalhado pelo chão, é ainda enterrado numa vã esperança de que estaria assim sumindo de nossas vidas sem nos causar qualquer consequência futura.


Em resposta à essa irresponsabilidade generalizada, já existem diversas ideias como as caixas de compostagem para lixo orgânico que poderíamos ter em casa, além de uma maior eficiência no processo de reciclagem de materiais descartáveis. Acontece que em cidades com governos igualmente irresponsáveis, como em Ribeirão Preto, essas ideias não são transformadas em políticas públicas, ao contrário, são negligenciadas e postergadas para o futuro longínquo. É necessário que o cidadão assuma a responsabilidade nesse processo, que começa no ato de consumir, passa pela forma de descartar e continua na exigência de políticas mais desenvolvidas para a gestão dos resíduos sólidos e da limpeza urbana. O final vai depender de nós.


terça-feira, 10 de julho de 2012

A alma do negócio é você

Na corrida eleitoral a propaganda é o motor. Durante esse processo, os candidatos disputam a tapas os melhores editores, publicitários, maquiadores e cabeleireiros. É importante agradar pela imagem, pelo dinamismo dos vídeos, pela performance, pela beleza dos apresentadores e pela capacidade de transformar o feio em belo.

Vivemos em um tempo onde o audiovisual cumpre um papel preponderante não só na publicidade de produtos mercadológicos, mas também na promoção de ideias e conceitos. Os políticos não fazem por menos. Não tem grana para contratar a equipe da Globo? Que tal amarrar uma gaiola na sua bicicleta? Ou talvez ficar acenando para os automóveis na avenida? Pinte o seu carro, sei lá, é tudo propaganda!

Na propaganda eleitoral o programa é o próprio intervalo comercial. Não se oferece algo produtivo, não se educa e nem se politiza. O que se faz é a tentativa de convencimento cego, pautado pela capacidade de mentir sinceramente. Perceba que, até mesmo no debate ao vivo que sempre rola na televisão, o que se sai melhor é aquele que age com mais destreza, jogando olhares charmosos e falas bem articuladas para as câmeras.

Nesse negócio, que por sinal é patrocinado por grandes empresas nacionais e multinacionais, o interesse é ganhar o seu voto. Enquanto no capitalismo a publicidade pretende criar necessidades a partir da falsa promessa de felicidade, na publicidade eleitoral se pretende convencer que a sua vida será melhor mediante um voto. Será?

Não podemos descartar a importância das eleições, nossa reflexão vem no sentido de subestimar a importância da propaganda eleitoral. Decidir o seu voto baseando-se em peças publicitárias, e não por uma investigação mais aprofundada dos programas políticos e histórico dos candidatos, é vendê-lo barato de mais. Proteja-se de quem você vai escolher, compare e não se deixe levar pela hipnose visual. Nessa política financiada, a alma do negócio é você.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Permitir la tristeza


La felicidad es un estado de espíritu, una importante condición humana que podemos atingir a partir de pequeños detalles, pero nosotros no somos hechos de puras alegrías. Nuestros cuerpos también contienen angustias y tristezas, incluso los más aparentemente felices. Miremos para esto de una manera positiva, o por lo menos intentemos sacar de esto algo para nuestro desarrollo. Sí, yo creo que hay en las tristezas que nos habitan un aspecto positivo. Los grandes artistas, filósofos y poetas, en su gran mayoría, eran – o son – personas tristes y melancólicas. Bueno, tal vez no exactamente tristes, pero atentos a sus propias angustias, no escapaban de su realidad. ¡Hay  que permitir la existencia de la tristeza! Vivimos en un mundo donde se encuentran centenas de anestesias baratas para sufocar nuestras aflicciones, cambiamos la tristeza creativa por alegrías efémeras. La sociedad del consumo y apariencia no permite frustraciones, estamos constantemente sedados por las felicidades descartables. Son cosas pequeñas hechas para disfrazar la verdadera condición humana. ¡Hay que permitir la existencia de la tristeza! Por supuesto, lo mejor de la vida es poder compartir la felicidad con quien amamos, pero creo que ni esto habría si no tuviéramos momentos tristes también. Sin las angustias no sabríamos ser felices y no tendríamos fuerzas creativas para superarlas. Permitir la tristeza no es adorarla, pero sí aceptarla como algo natural y que nos hace más fuertes y listos para la vida.

domingo, 27 de maio de 2012

O TEMPO NUNCA É TANTO


O tanto nunca é tempo
Para aliviar tormento
De quem ama sem pedir
Alento

O tempo nunca é tanto
Para enxugar o pranto
De quem ama sem saber
O quanto

Tanto tempo
E ainda te busco no pensamento
Tanto tempo
E ainda ouço o teu lamento

O tempo nunca é tanto
Para destruir encanto
De quem amou sem medir
O quanto

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Porto de Galinhas - PE


Sociedade subornada

Aqueles que abdicam de seus próprios interesses e se distraem de suas verdadeiras paixões para apegarem-se em felicidades baratas e amores descartáveis. Aqueles que descartam as realizações individuais para compartilharem alegrias efêmeras. Aqueles que preferem a casca em detrimento da carne, como diz Henry Thoreau. Não tenha dúvidas, são eles quem compõe a sociedade subornada, um lugar cada vez mais inóspito aos que pretendem agir com princípios e coerência. Nesta sociedade não se busca alcançar aquilo que se crê, ou aquilo que se deseja, o que podemos observar são pessoas dispostas a realizar atos mecânicos com finalidades previsíveis, atos que, no final das contas, refletem uma escolha segura e cômoda. Os atos mecânicos, as condutas conservadoras, o desejo de estar seguro com aquilo que se possui nada mais é do que um produto do medo. Não que eu acredite que não devemos prezar por aquilo que conquistamos, mas nesta sociedade subornada ocorreu uma inversão perniciosa ao ser humano, onde os meios passaram a ser um fim. Vivemos sob a ditadura da posse e dos prazeres repetitivos, ditadura esta que é um fruto do ciclo vicioso imposto pelo sistema capitalista onde trabalho e consumo significam nada menos que a vida. Estamos submersos num mar de mediocridade onde até mesmo as crianças, verdadeiros diamantes em estado natural, são constantemente desacreditadas da liberdade e contaminadas pelo medo de seus pais, tutores e educadores. Mesmo assim as crianças ainda são a esperança, pois elas tem em si a essência da liberdade que é a coragem! Feliz é aquele que tem a sua volta pessoas corajosas e livres de preconceitos, estas pessoas jamais se deixam subornar pela vida mesquinha e materialista. Nossos atos estão quase sempre de acordo com aquilo que temos como referência, por isso na sociedade subornada a desonra é um mal contagioso. Mas como fugir daquilo que compra as nossas almas e nos faz agir como bonecos num mundo de aparências e de superficialidades? De que maneira seremos livres se mal podemos sair para uma caminhada sem destino e hora pra voltar? Eis a grande questão, pois acredito que vencer estes desafios é uma tarefa constante e que, na verdade, não tem receita. Cada um de nós precisa encontrar em si mesmo uma forma de impor-se ante aos subornos diários do mundo capital. No entanto, se nosso espírito, mente e coração estiverem sincronizados e voltados para o mesmo ideal, desejosos da sabedoria que é fruto da experiência individual espelhada no conhecimento que o mundo nos oferece, provavelmente assim estaremos menos suscetíveis aos botes do inimigo. Sejamos menos dependentes e mais autônomos, cobremos de nós mesmos mais do que dos outros e sempre recordemos das palavras de liberdade que grandiosos seres humanos nos legaram. E o que jamais podemos desprezar é o valor do sentimento, pois ele é aquilo que transcende a conveniência racional de se deixar ser subornado.